quinta-feira, 22 de dezembro de 2016



Há pessoas que nunca nos esquecemos, que fazem parte do nosso respirar, que vemos diariamente ao nosso lado, que connosco caminham com a mão sobre o ombro, que nos inspiram em tudo o que de bom fazemos, que as sabemos nossas sem que as escolhesse-mos.
Há pessoas que nos fazem sorrir cada vez que nos lembramos delas e que nos deixam deveras tristes pela mesma razão.
Pessoas a quem recordamos o gargalhar, o “dar de vaia”, o aceno amigo, o transpor atabalhoado do obstáculo físico que nos dividiu, há pessoas que nos fazem suspirar em vez de respirar.
Há pessoas puras, alegres, verdadeiras, genuínas e integras que tudo dão sem esperar nada de volta.
Há pessoas que adotamos ou pelas quais somos adotados.
Ainda há pessoas assim.
Ou havia…

domingo, 18 de dezembro de 2016

Debaixo da minha árvore de Natal está uma prenda para ti. A minha atenção. Dou-ta antes que o Pai Natal chegue, antes que o menino Jesus nasça, antes que os Reis sejam ainda mais Magos do que eu. A minha atenção é tua, neste Natal e no resto do ano. A minha atenção a todos os teus gestos, sorrisos, vontades, decepções e urgências. Se souberes desfrutar dela verás que riremos o ano inteiro, descobrirás no teu lado mais clandestino o que não sabias existir. Antes mesmo que o próprio Natal chegue digo-te aqui que tens a minha pupila atenta a ti, como já a tiveste o Natal anterior. Antes que o Natal chegue digo-te que tens a minha loucura, o meu atrevimento, a minha gargalhada, o melhor do meu lado esquerdo, porque inspiras todas as minhas horas e porque apesar de te sentir nunca te tenho por perto. Por isso me perco em ti e sempre que posso inspiro muito devagar tentando conter cada segundo em mim, porque me fizeste melhor. Assim digo-te uma vez mais, tenho, debaixo da minha árvore de Natal, uma prenda para ti.
(por Celeste Silva)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."


(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016


"Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis..."


José Gomes Ferreira

terça-feira, 13 de dezembro de 2016














"na hora de pôr a mesa, éramos cinco: 
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco." 

José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas'